Arquivo para o mês: março, 2014

Parcelando a alma

Art 604 - Parcelando a alma

Comprar já permitiu ao homem se redimir de seus pecados frente ao criador antes da contra reforma de Lutero, comprar já permitiu libertar escravos quando a ignorância era quem dominava, comprar já permitiu muitas coisas e hoje o que mais produz é dependência e endividamento.

Como verbo bitransitivo, o verbo comprar parece mesmo estar na moda, superafinado com a liberação sexual, mas isso é outro assunto, o fato é que e seguimos comprando e comprando.

Faz parte do show e do esforço publicitário dissociar o comprar do pagar, principalmente faz parte do esforço esquecer-se totalmente do quanto deixamos de ter tudo mais para ter algo, uma vez que o capital é finito e o desejo não. Vende quem tem melhor apelo, vende quem se torna prioridade, vende quem convence que pagar é um detalhe.

Neste mesmo espetáculo do consumo, diante da dissociação citada acima, faz-se grande associação do comprar ao ter, ao possuir, ao pertencer e principalmente ao ser.

A desconstrução da responsabilidade do pagar, que advém do comprar, gira a principal engrenagem do nosso consumo hoje, o financiamento, o parcelamento, o endividamento. Um país endividado com um povo endividado, isso define Brasil hoje. Quer seja pelo exemplo, pela falta de consciência da população ou pela falta de oportunidade, o consumo no Brasil gira na base da prestação, e isso é um castelo de cartas, aonde o primeiro a não pagar, gera impacto em toda a cadeia. Assim cada vez mais crédito é preciso para garantir o crédito existente.

No país da maior taxa de juros do mundo no rotativo do cartão crédito, e segunda maior elevação da taxa de juros do mundo (só perdemos para a minúscula República da Gâmbia, um aglomerado na África!) seguimos comprando coisas em 6, 12, 36, 60 até 360 vezes, como é o caso do parcelamento de imóveis.

Parcelar pode não parecer problema quando pensamos em imóveis ou remédios, mas o consumo inteiro baseado nisso e principalmente alardeado com o famoso “sem juros” é que impressiona no, e pressiona o, mercado.

Um crédito de automóvel consume em 24 meses quase 50% do valor inicial do veículo em juros, o que significa que ½ carro deixa de ser vendido a cada carro financiado. Um enorme absurdo, um enorme prejuízo para o poder de consumo de uma família.

Apesar da demência do congresso que definiu a taxa máxima de juros na constituição em 12% a.a. (a única no mundo com tal debilidade) seguimos com enormes margens embutidas em produtos e serviços, que escamoteiam taxas bem maiores que as sugeridas na constituição.

Reféns de um truque aonde, apesar do cartão de crédito ser considerado compra à vista e ser merecedor de igualdade de vantagens na compra à vista, um sem número de negócios oferta desconto no pagamento à vista de verdade, ou seja, aquele aonde se paga em dinheiro ou boleto. Chamadas prometem parcelamento sem juros e desconto à vista. Ou eu deveria ter sido reprovado em cálculo no curso de engenharia que cursei ou desconto à vista equivale a acréscimo na venda a prazo, mas a linguagem do consumo a culpa se desprende e seguimos comprando “sem juros”.

A verdade é que de prestação em prestação não sobra nada. Com produtos cada vez piores, com taxas e dívidas cada vez maiores, com prazos aparentemente melhores e poder de compra sempre menor seguimos fingindo que está bom e atrasando uma prestação para não perder a outra.

No malabarismo do parcelamento sem juros o brasileiro padrão vive endividado tentando ter seu padrão de consumo melhorado ou ao menos mantido. É o padrão de vida determinando o padrão que vivemos. É a prestação definindo nossa “prestabilidade social”. Só presta ao mundo quem compra. Consumo, logo existo.  Diria Descartes em tempos atuais!

O mantra do consumo credita mérito apenas na prosperidade financeira, impede que seja dividido com atributos como conhecimento, segurança, felicidade ou qualquer outro valor.

Já que o peso social não permite mais dividirmos nossa vida em muitos atributos, seguimos dividindo as compras e parcelando a alma. Vai que volta a moda comprar perdão pode ser um bom momento para abrir um crediário no céu, mas não esqueça, se for seu caso, prefira o cartão de crédito que tem programa de milhagem…

 

“Roberto Mendes é publicitário, especialista em marketing pelo Instituto de Administração e Gerência da PUC/RJ, pós-graduado em Engenharia Ambiental, professor titular da Universidade Candido Mendes e sócio da Target Comunicação.”

Entre a Serra Leoa e Miami

Art 603 - Entre a Serra Leoa e Miami

Nosso Brasil detém misturas que vão bem além de raças e credos, alcança muitas realidades de consumo, de legislação e acesso a informação e serviços.

Nesse coquetel de realidades díspares orbitamos repetidamente entre o céu e o inferno, com shoppings de alto valor, com segurança reforçada, carros blindados, serviços de valets e marcas do primeiro mundo a preços de outro mundo. Enquanto isso na quadra vizinha shoppings populares prosperam cercados de barracas de camelô que revendem sem nota um mundo de produtos falsificados, contrabandeados e/ou roubados no cartão de crédito em, 3x sem juros.

Vivendo na subcultura americana, importamos nomes, música, halloween, consumo. Pagos em real e gastando em dólar nossa economia e em especial nossos adolescentes e jovens cultuam o consumo de forma totalmente distorcida aonde novamente abismos de realidades se formam, de um lado o garoto zona sul possui tudo de bom, sem noção de quanto vale o dinheiro, e um pouco mais acima, os morros observam uma realidade tão longínqua do consumo e tão perto nos valores, produtos e marca que não são acessíveis. Querem ter para pertencer, já que não lhe entregam educação, oportunidade, respeito…

Com tantas qualidades na cultura americana como senso de dever cívico, poder público que funciona, democracia e consumo amplo e barato, ficamos apenas com o consumo amplo e nada barato.

O brasileiro cada vez mais se escraviza no consumo incentivado pelas políticas públicas que não se interessam em formar ou informar cidadãos. Injetando dinheiro apenas para o crédito, nosso país cresce lentamente, a pífios 2.5 a.a., enquanto o nível de endividamento da população sobe mais que isso. O consumo no Brasil sangra a riqueza do próprio país uma vez que a imensa massa de consumo acontece financiada e não gera novas riquezas, apenas dívida. Repetindo os hábitos da União, seus cidadãos devem cada vez mais e compram cada vez mais passivos que geram, por sua vez, cada vez mais despesas e fecha-se a bola de neve no modelo de economia subdesenvolvida.

A sétima economia do mundo não tem nada de grande economia, mas de economia grande. Vivemos de resultados absolutos, ou seja, grandes números porque somos grandes, não porque somos geniais ou eficientes. Nas performances relativas somos fracos e desproporcionais ao nível e hábito de consumo e impostos pagos.

Pagamos impostos caríssimos, de primeiríssimo mundo, quer seja sobre a renda ou sobre o consumo, e recebemos terceiro mundo no que se refere à qualidade de produtos e serviços privados ou públicos.

Ao final desta semana mais de 400 bi de reais já terão sido arrecadados dos brasileiros desde o inicio do ano na forma de impostos. Com taxas de 280% ao ano no rotativo dos cartões de crédito o brasileiro segue comprando agora e vendo como paga depois, e todo esse juros que poderia ser poder de compra some do mercado, nos levando cada vez mais para Serra Leoa e cada vez menos para Miami.

O brasileiro precisa gastar menos, poupar mais, exigir menos impostos, frear a corrupção, torcer menos pela seleção brasileira e fazer mais pelo Brasil, batucar menos o tamborim e enfiar o dedo nos números corretos na urna. Em ano de eleição, a copa do mundo é pura distração, soa como etiqueta de promoção, aonde a oferta ruim, mas a vitrine é linda. É Serra Leoa embrulhada em papel de presente de Miami. Vai pagar em quantas vezes?

 

“Roberto Mendes é publicitário, especialista em marketing pelo Instituto de Administração e Gerência da PUC/RJ, pós-graduado em Engenharia Ambiental, professor titular da Universidade Candido Mendes e sócio da Target Comunicação.”

Investigar e Satisfazer

Art 602 - Honra e prazer

Somos seres sociais, gostar de pessoas é um comportamento que nos define, nos aproxima, nos iguala. Seja no comércio ou na prestação de serviços, o contato direto com o cliente é uma situação característica, repetitiva, assim atender é mais que uma vocação, é uma profissão.

O atendimento de vendas permite mais que contato, permite grande interferência no destino do cliente. Na escolha da roupa, sapato, carro, casa, flores, eletrônicos, comida e tantos outros itens os quais compramos, quer seja diariamente quer seja raramente. O fato é que muitas compras ainda são diretamente influenciadas pelo vendedor ou poderiam ser.

Não raramente um bom processo de sondagem, o ritual que deve sempre anteceder uma venda, o qual se busca compreender necessidades, desejos e limites do cliente, permite além de uma interferência bem mais adequada no destino da compra, pode gerar uma intimidade rara, preciosa que diminui a resistência do comprador e aumenta a confiança deste no vendedor.

Quem atende precisa compreender as dimensões do tipo de serviço que realiza. Quem atende participa de aniversários, sonhos, festas, pacificações etc. A cada presente existe uma história e a cada história há a opção de informar-se ou envolver-se. Informar-se é básico, necessário e indispensável. Envolver-se é muito mais amplo, mais adequado e mais frutífero; envolver-se é um privilégio, uma oportunidade e uma honra.

Seguidamente percebo negligência na sondagem. Nenhum compromisso com o processo de investigação e na indicação da solução, e pouco ou nenhum interesse na real satisfação dos interesses do cliente.

O processo de atendimento de vendas deve ser pautado pelo foco no cliente, não por romantismo, mas por ética e rentabilidade. Vender “bem vendido” gera satisfação, fidelização, indicação e rentabilidade. A boa venda é dependente, ou de um processo impecável de sondagem, ou de um cliente muito especialista – o que raramente é o caso. Somos, via de regra, todos clientes ignorantes, não sabemos nada do que compramos, e compramos por motivos que quase sempre estão errados, então sondar e descobrir os motivos que nos movem enquanto cliente é obrigação do vendedor, e não do comprador, como muito atendente pensa.

Tem por sinal muito vendedor que é tão ou mais ignorante que o comprador, aí o processo de venda fica condenado à sorte e a apatia total. Vendedores que desconhecem o que vendem, que argumentam vagamente, com o famoso “vende muito”, ou apelam logo para o parcelamento ou para o desconto, dada a imensa ignorância a cerca do que vende.

Vendedores assim são especialistas em baixar o clima e o resultado, quase sempre termina em uma experiência morna ou fria para o cliente ou seu desfecho é o cancelamento ou adiamento da venda/compra.

O vendedor precisa se orgulhar do que faz, precisa ser de fato um profissional de vendas, que conhece seu mix de produto, com as sutilezas do seu uso, aplicação e preço. O bom vendedor se interessa pelo tripé do processo: cliente, empresa e soluções (produtos ou serviços disponíveis a ofertar). O verdadeiro bom vendedor compreende essa intimidade com a vida do seu cliente, com os aniversários, com festas, promoções e fatos marcantes. O bom vendedor tem capacidade de investigar, descobrir, e sobre tudo tem orgulho, prazer e conhecimento para solucionar cada um destas situações.

 

 

“Roberto Mendes é publicitário, especialista em marketing pelo Instituto de Administração e Gerência da PUC/RJ, pós-graduado em Engenharia Ambiental, professor titular da Universidade Candido Mendes e sócio da Target Comunicação.”

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