Arquivo para o mês: abril, 2014

Isso é que é bonito

Art 608 - Isso que é bonito

 

No pós feriadão nada mais adequado do que avaliar a experiência turística. Ficam as fotos, as contas a pagar, as lembranças e a exata percepção de que ainda há muito a melhorar.

A vivência e a reprise insistente, de quem recebe o turista, em esquecer que aquele momento é o único e/ou o primeiro daquele viajante contrasta com as expectativas e custos da viagem. A automatização de quem o recebe é no mínimo frustrante para quem viaja.

A demência de ofertar sempre mais do mesmo, sendo incapaz de tratar as pessoas como pessoas é o grande mal de muita gente que erroneamente trabalha com turismo. Serviço frio, padronizado e distante ainda entremeiam os álbuns de foto de quem faz a mala e sai por aí.

Vendedores replicam esse erro ao esquecer que sua vigésima venda do dia pode ser a primeira da vida daquele consumidor. Se no balcão de vendas isso deixa sequelas, no álbum de fotos é ainda pior.

Se engana quem acha que todos fazem errado, tivemos experiências maravilhosas como restaurantes ótimos, pessoas doces e comprometidas, e lugares divinos, mas quem acredita estar perfeito tende a tropeçar em sua premissa, pela simples e perigosa ausência de informação.

Pudemos vivenciar diversos receptivos, agência de turismo, guias, pousada (nem me fale) e atrações e o que se vê ainda é um enorme padrão, um tratamento de dia-a-dia e esquecimento quase completo da oportunidade de avaliar, com suas próprias palavras, a experiência do turista sobre a oferta de negócio comprada.

Avaliar com perguntas ainda é a melhor opção em determinados casos e muitas vezes o turista tem tempo e pré-disposição em informar. Viver com a sombra de suas próprias deduções é turvo e quase sempre termina com uma fotografia desfocada a cerca de si e do que seu cliente espera desta vivência.

Bonito é um destino turístico desejado no Brasil e no mundo, mas ainda exige muitas melhorias ao turista, suas diversas opções de programa ainda exigem do comprador muitas perguntas prévias para que a experiência transcorra em sua plenitude. As regras estão definidas por quem entrega o serviço e não por quem vende. Esse gap de comunicação, entre intermediário e atração, gera erros e frustrações. Experimentamos em diversos momentos a decepção em outros turistas pela desinformação, vi em donos de negócios comportamentos que inspiram desagrado em clientes e conformismo em funcionários, em contraponto conhecemos pessoas inspiradoras como foi o caso do dono (não por acaso) do melhor e maior restaurante da cidade com equipe encantadora, envolvente e qualificada. Conhecemos guias apaixonados e motoristas felizes. Em meio a natureza exuberante ficaram escondidos erros e acertos, alegrias e frustrações.

Ausência de bancos eletrônicos, recusa em cartões de crédito, desencaixe entre vôos e traslados, internet precária são exemplos que materializam pecados capitais. Em contra ponto a preservação do meio ambiente através de cotas rígidas que limitam os acessos e controlam as vendas são iniciativas a serem seguidas. Vimos belezas únicas e vimos nossa região em outras. Vimos turistas brasileiros e de diversos continentes.

O Brasil tem fantástico potencial, Nova Friburgo e região pode sim ser cada vez mais um belo destino de turismo, mas há um longo caminho a ser seguido, há muitos aprendizados a serem realizados e muitos erros a serem evitados ou corrigidos.

De um jeito ou de outro Bonito ganhou um prêmio europeu como melhor destino de ecoturismo do Brasil e ainda há muito o que melhorar asseguro.

O fato é que se o turista ao arrumar sua mala precisa trazer paciência e certo senso de sobrevivência, cabe ao empresário melhorar sua visão sobre seu negócio e entender que o turista traz diversas outras experiências e parâmetros na sua expectativa ou exigência. O tripé determina ainda que cabe ao colaborador, e urgentemente, grande comprometimento com este momento de quem compra e experimenta, há muito mais planejamento e desejo, do turista, do que cabe em uma mala grande de viagem.

 

“Roberto Mendes é publicitário, especialista em marketing pelo Instituto de Administração e Gerência da PUC/RJ, pós-graduado em Engenharia Ambiental, professor titular da Universidade Candido Mendes e sócio da Target Comunicação.”

 

Tiradentes nunca foi tão bem enforcado!

Art 607 - Tiradentes

No país do crescimento pífio de 1.6 ao ano, crescimento menor que o crescimento vegetativo da população (aquele induzido pela taxa de natalidade, que independe de esforços concentrados do estado ou da iniciativa privada – apenas do casal (risos), e do crediário atrasado, estamos entrando em mais um carnaval em pleno abril, na verdade mais do que um carnaval para os fluminenses. No estado do Rio de Janeiro resolveram homenagear Tiradentes com a maior enforcada da história, dias sem geração de PIB, receita, lucro e outros detalhes tão necessários ao bom funcionamento do mercado.

Enquanto o impostômetro alcança a bagatela dos 300 bilhões em impostos arrecadados este ano, nós vamos descansar por seis dias seguidos.

Não sou contrário a feriados, na verdade eles são grandes oportunidades de desenvolvimento de outros negócios, negócios relacionados a serviço como restaurantes, hotéis, transporte etc. O grande problema está no fato de que 20% do mês não gerarem produção e haver a absoluta manutenção do custo operacional para o empregador.

Com uma folha tão dispendiosa que onera o emprego, escalpela o empregador, o desnutre o empregado, tanto no salário, como nos encargos e responsabilidades demissionais, o estado precisa respeitar mais o trabalhador e o empregador, e tratar a política de feriados de forma mais responsável.

Se o custo indireto do empregador, que naturalmente é equilibrado no salário direto do funcionário, fosse menor, certamente o colaborador poderia ganhar melhor em termos absolutos (e custando menos) e permitiria que feriados como esses fossem bem usufruído por um número maior de pessoas, gerando muita riqueza e desenvolvimento.

O ócio é um grande mercado no mundo inteiro. Feriados são geradores de receita e desenvolvedores de negócios que atingem desde a economia de base (infraestrutura) a economia de ponta. Da estrada à sofisticada indústria aeronáutica, do vendedor de cachorro quente na praça ao resort mais luxuoso, todos prosperam nos feriados, e é bom até para a produtividade do colaborador, que pode descansar, viajar, resolver assuntos pessoais etc.

Os feriados podem amenizar efeitos da sazonalidade de mercado que comumente se concentra na operação do mercado de turismo, levando multidões em período de férias escolares e mantém o restante do ano em áreas de abandono, em total baixa demanda vivendo a míngua, desabastecida de clientes.

Para restaurantes, hotéis, empresas de turismo receptivo, cultura, diversão e entretenimento de modo geral, feriados são pequenos milagres no fluxo de caixa, que dão gás ao negócio, ajuda a segurar seus custos fixos e planejar melhorias e reinvestimentos.

Então o problema não é o feriado, o problema é quem paga a conta do feriado.

Hoje a realidade é que o empresário normal precisa custear este processo de feriados sozinho, arcando involuntariamente com perdas de 20% em sua capacidade produtiva frente à manutenção do custo e das imensas dificuldades de gestão no banco de horas de seus colaboradores.

Precisamos evoluir, se queremos ser um pais desenvolvido, pronto para o caminho do lazer, turismo e diversão, precisamos rever os processos que penalizam as paradas.

O Brasil tem potencial turístico espetacular, tem um povo nascido para se divertir, e usar essa vocação, transformando o turismo como negócio sério e prioritário é uma das oportunidades.

Resta saber até quando o empresário será enforcado a cada Tiradentes.

 

“Roberto Mendes é publicitário, especialista em marketing pelo Instituto de Administração e Gerência da PUC/RJ, pós-graduado em Engenharia Ambiental, professor titular da Universidade Candido Mendes e sócio da Target Comunicação.”

 

 

 

A Copa vai ser uma goleada

Art 606 - A Copa vai ser uma goleada

A copa nem começou, mas as oportunidades de tirar vantagem do visitante já.

Driblar a mesmice, atacar com objetivo e cabecear a bola do preço de oportunidade são jogadas previsíveis em qualquer copa do mundo, em qualquer lugar do mundo, e não vai ser no Brasil que isso vai ser diferente, pelo contrário.

Todos nós sabemos da absoluta falta de estrutura no recebimento ao turista, e sabemos também que isso vai gerar um sem fim de oportunidades de negócios a preços muito diferentes do normal. Afinal se um Rock in Rio já gera leilões por taxis, a copa do mundo vai gerar tiroteio por garrafinha de água sem gás.

Essa semana grandes redes de hotéis no Rio de Janeiro foram multados pelo Procon do estado por não exibirem preços referentes aos períodos do Carnaval e Ano novo passados. É que o Procon acredita que é preciso ter uma comparação com os preços propostos para o período da Copa do Mundo, com outros de alta temporada, de modo a evitar os esperados abusos.

Esse acontecimento não é um fato isolado. A prestação de serviço sofre de um imenso mal que impede o estoque, assim, adequar-se a grandes demandas é quase impossível, resta ao prestador de serviços observar a fila em sua porta sem pode atender ou usar de oportunismo para lidar com as urgências ou excessos da demanda.

Quanto custa uma cerveja na praia num dia de calor, pleno verão, as três da tarde!? E num dia de frio, chuvoso, plena quarta-feira? O vendedor de cerveja sabe que seu isopor tem limitações e sua capacidade de atendimento também. Por mais que a cerveja possa ser estocada, a ação de vender e estar no lugar certo, na hora certa, é limitada e, portanto, obedece a oportunidades de negócio.

Hotéis sempre operaram com preço gerenciado por resultado, com os períodos chamados de alta e baixa temporada. Nesta lógica seus preços sempre oscilaram na mesma mecânica, e esperar que os preços em plena Copa do Mundo obedeçam a limites comparáveis a alta demanda ainda é injusto, pois a Copa é sim um megaevento que trás consigo megademandas e megaoportunidades.

Claro que na condição de turista me preocupa e me frustra o oportunismo, mas na condição hipotética de consultor, gestor ou dono de uma empresa em meio a esse mar de oportunidades na praia de Copacabana, acredito ser um imenso erro tratar tal situação como comum ou como uma curva de demanda sazonal e usual.

Largando a demagogia populista, em qualquer escola de negócios minimamente séria, decisão de preço nunca foi função de custos, estes auxiliam apenas na informação de viabilidade econômica ou não do item ou projeto. O que define preço mesmo, entre muitas possibilidades, é demanda. Até aonde a demanda suporta e até aonde se pode entregar. Ou seja, qual o nível de preço tolerado pelo comprador e qual o nível de entrega do fornecedor. Assim delimitar preço tem tudo a ver com oportunidade, em especial em serviço.

O Procon e os consumidores que se preparem. Há uma intensa partida a ser jogada a frente. No país do futebol, dos oportunistas e de poucas oportunidades, vender mais caro do que o normal não é falta, é gol.

 

 

“Roberto Mendes é publicitário, especialista em marketing pelo Instituto de Administração e Gerência da PUC/RJ, pós-graduado em Engenharia Ambiental, professor titular da Universidade Candido Mendes e sócio da Target Comunicação.”

Empreendedorismo da Catástrofe

Art 605 - Empreendedorismo da Catástrofe

Dentre muitos mantras repetidos até a exaustão um em particular me preocupa e me incomoda um pouco mais: a doutrina do empreendedorismo.

Num país aonde a educação é considerada supérfluo, o jeitinho é orgulho nacional e a teimosia faz parte do slogan de ser brasileiro, vejo o empreendedorismo com olhos lacrimejantes.

Não faz muito tempo a Revista Veja publicou um extenso estudo sobre educação pública no país onde alunos, professores e pais estavam todos satisfeitos com a aprovação automática, demonstrando que o interesse de todos não é no resultado, mas na rotina. Rotina fácil e vida medíocre, mas esta lógica, tratamos mais a frente.

O jeitinho brasileiro venera o improviso como solução administrativa, produtiva, comercial e de consumo, transforma a criatividade em pai da solução afastando o conhecimento, a vivência ou a pesquisa; e gabando-se da gambiarra como quem se orgulha de um filho, o brasileiro padrão acredita que criatividade é sinal de inteligência, e finaliza seu perfil com um patético e conformista slogan: “Sou brasileiro e não desisto nunca”. Slogan que prefiro entender como o mantra do teimoso que não sabe o que fazer e insiste, teima até que fale, e então falece.

Enquanto consultores ganham dinheiro, às custas da autoajuda, falando que brasileiro precisa melhorar sua autoestima, acredito que precisamos é baixar a nossa bola. Nosso problema não é falta ou excesso de autoestima, mas uma persistente incompreensão entre causa e consequência, uma irresponsabilidade genética relativa ao que será do futuro, seja ele próximo ou distante.

Nesta terça o Brasil ficou em 38ª colocação entre 44 países, no quesito raciocínio lógico.  Veja bem que isso não é uma disciplina formal, mas um modo de pensar, um modo de ensinar e aprender. O estudo foi realizado pelo Programa Internacional de Avaliação de Alunos (PISA) e divulgado pela Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE), sediada em Paris. O resultado demonstra claramente que criativos burros, teimosos ou ignorantes podem existir, desdizendo a crença popular de que o esperto é inteligente; será o nosso caso!?

O Brasil não precisa de empreendedores, não se mantidos os termos atuais que misturam num mesmo saco de gatos aventureiros com empresários. Quando se pergunta por que empreender, a resposta maciça é “para não ter mais patrão”. Não existe foco em rentabilidade, em prosperidade, em acreditar em um causa, nada, é a pura malemolência que leva a manada a empreender. Não há um plano de negócio, não há conhecimento do mercado, é o sonho da independência a grande razão. É sonho, não é plano! Não há investimento em melhores práticas, aliás, não há investimentos. O negócio é comumente visto como uma mula, que deve prover tudo ao senhor feudal, e em dois anos 45% a 50% deles estará quebrado (fonte Sebrae). E o número pode ser maior, porque parte das empresas não dão baixa no cadastro ou não saem do mercado porque o uso de ativos especializados é alto e impede ou retarda a saída. Deste modo os 55% que ficam não são, necessariamente, negócios rentáveis ou que ajudam de fato na prosperidade daquela família ou pessoa.

Parte deste erro, no empreender, advém do uso de ex-colaboradores descomprometidos que, repetindo condutas superficiais até então dedicadas aos seus ex-empregadores, empreendem mantendo a performance e rapidamente sufocam. Repetindo seu toque de Midas subdesenvolvido, transformam em ferro todo ouro que tocam. Parece que ninguém fala, grita ou sinaliza ao menos, que os comportamentos são determinantes, juntamente com o conhecimento, preparo e oportunidade, para que o negócio sobreviva, e mais, viva e dê frutos.

Nossa 38ª posição em lógica é o retrato da ausência de correlação entre causa e consequência que norteia nossa realidade. Um estado que governa com foco apenas em quatro anos, um ex-trabalhador padrão que busca apenas independência, não prosperidade para si ou comunidade, e um aluno que quer terminar os estudos e não aprender. Ninguém parece focado no resultado, ou capaz de compreender a relação exata do resultado com a ação.

Assusta porque tanto na filosofia, na religião (princípios usados no cristianismo e no budismo), como na física (terceira lei de Newton) essa correlação de causa e efeito ou ação e reação sempre estiveram juntas, mas compreender isso exige lógica, matéria agora comprovadamente escassa no país do futuro.

Empreender com despreparo, insistir sem conhecimento, estudar sem aprender são só algumas ações que tem consequências previsíveis e catastróficas, e o que enxergamos agora não é a consequência, mas a ponta do iceberg.

A lógica é que insistir na falta de lógica vai continuar fazendo do aluno um péssimo profissional, do profissional um péssimo empreendedor e do empreendedor alguém em uma atividade de altíssimo risco. Afinal se fosse uma cirurgia, você deitava na mesa com 50% de chance de morrer? Ainda assim é o sonho do brasileiro médio, empreender e falir em até 2 anos, afinal, sou brasileiro e não desisto nunca, não é assim que dizem por aí?!

 

“Roberto Mendes é publicitário, especialista em marketing pelo Instituto de Administração e Gerência da PUC/RJ, pós-graduado em Engenharia Ambiental, professor titular da Universidade Candido Mendes e sócio da Target Comunicação.”

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