Arquivo para o mês: setembro, 2014

Vida de cão!

 

 Art 631 - Vida de cão

 

Tem muita gente por aí querendo nascer bicho e não precisa nem ser destes felpudos, fofinhos ou de olhinhos grandes, tipo gato do Shrek, afinal o próprio conceito de animal doméstico já mudou ao longo do tempo. O que no passado era cachorro e gato, agora é tartaruga, calopsita, iguana, cobra etc. A expressão cobras e lagartos nem faz mais sentido, afinal elas tem ração especial, terrários… O que falar dos ramsters que tem uma verdadeira Disneylândia para brincar…

O mundo PET só faz crescer, lojas segmentadas se esparramam pelas ruas, e a impressão que dá que há mais animais domésticos do que criança no mundo, pois há mais lojas especializadas em bicho por aí do que infantis.

Os mimos para a bicharada já deixaram de ser razoáveis e estão se tornando sem noção, para usar uma expressão atual. Rações de cachorros e gatos alcançam 14 até 19 reais o quilo, o que dá pra comer bem, se passar antes por um açougue ou boutique de carne (está na moda agora), se não comprar picanha, dá pra levar contra filé pro au-au e ele vai se amarrar… O que aconteceu com a comida dos cachorros? O que aconteceu com os cachorros? Agora usam roupa de frio, botas, boné, brincam com osso de mentira e se duvidar não latem mais. Sofrem de depressão, estresse, fazem relaxamento e tem seu dia de Spa.

Nossa perspectiva de consumo está criando bichos como bibelôs que espelham tendências de consumo e que expressam, em alguns casos, muito mais que amor, alcançam ao que parecem um comportamento espelhado de seus proprietários ou como alguns preferem se autointitularem: pais. Segundo o IBOPE eram 6 bilhões de reais em 2012 o que se movimentava no mercado de animais domésticos, com um gasto per capita em São Paulo de 46 reais. Ô bicho caro! E tem mais, a americana I Love Dogs vendeu uma coleira de 52 quilates de diamantes pela bagatela de 7.3 milhões de reais para um cachorrinho de uma celebridade.

Joias e bijus são outro mercado de peso, aonde pingentes, coleiras personalizadas e até piercings são comercializados para alegria dos papais, não dos bichanos. Como guizos em gatos, que só servem para enlouquecer bichos de alta sensibilidade a sons, por exemplo.

Nossos comportamentos transbordam aos nossos bichos ao que parece, projetamos em cães e gatos consumos e consumidores que gostaríamos de ser. Um estudo recente demonstra que os casos de depressão canina estão relacionados em sua maioria a casos aonde os “donos” também sofriam de depressão. Nos Estados Unidos 55% dos cães e gatos estão acima do peso, país reconhecido também pelo alto índice de pessoas acima do peso.

Tudo bem que não usemos mais o angu (que ainda alimenta parcelas significativas de brasileiros “bicho gente”), que se invista em vacinas e em consultas veterinárias (afinal é responsabilidade de um proprietário zelar e cuidar de seu bichano), mas é preciso conter ou questionar, ao menos, o exagero que ronda casas e apartamentos. Adoro bichos, em alguns casos mais que certas pessoas. Vejo neles confiança, sinceridade, carinho e lealdade, atributos raros em alguns humanos que conheço e insisto em ignorá-los, mas acredito que a melhor maneira de respeitar meus bichos é dar a eles a vida que eles querem e não a que eu idealizo ou a qual me realizo. Sem coleiras de brilhante, mas com quintal para brincar. Sem tirar onda com ou vizinhos, mas com muito carinho.

Talvez investir todo esse dinheiro em entidades que cuidam de bichos ou em campanhas que conscientizem as pessoas que bicho merece carinho e respeito, seja melhor que comprar rações caríssimas, ou roupinhas de grife que chegam a absurdos 7mil dólares. Acho que a pressa das pessoas, sem tempo para si, para os seus e para os bichanos está dando ao cartão de crédito mais valor que cinco minutos para brincar com seu bichano.

Na verdade vida de cão é uma expressão que também perdeu seu sentido, assumiu novo significado, não é mais aquele que fica com a sobra e a sombra, mas aquele que tem ração cara, brilhante na coleira ou roupinha chique, mas não tem mais companhia, uma bola velha pra brincar ou espaço para correr. Às vezes acho que os cães de antigamente eram mais felizes, parece que agora os felpudos estão realmente levando uma vida de cão.

 

“Roberto Mendes é publicitário, especialista em marketing pelo Instituto de Administração e Gerência da PUC/RJ, pós-graduado em Engenharia Ambiental, professor titular da Universidade Candido Mendes e sócio da Target Comunicação.

 

O sexo rolando e eu aqui dormindo!

Art 630 - O sexo rolando e eu dormindo

 

A cada dois anos me sinto em pleno rendez-vous, num tipo de inferninho aonde de um lado há machos alfas (não tão machos e nem tão alfas assim) e do outro moças da vida (neste caso jogadas à vida sem escolhas). Toda ano que tem eleição é disso que se trata na maior parte do tempo, para a maior parte dos candidatos, para a maior parte dos eleitores: de um televisivo rendez-vous.

Uma espécie de dança do acasalamento que visa fecundar votos, perpetuar espécies políticas e, num Darwin invertido, selecionar os mais fracos. O ritual parece querer gerar um cruzamento de um macho de coala e uma fêmea de equidna-de-bico-curto.

É caro leitor, isso não é uma coluna de ciências animais, mas humanas, portanto, marketing em sua essência!

Esse bicho fêmea sugerido acima, que parece um porco espinho, é um mamífero que se alimenta de formigas e cupins, habita a Austrália e não dá a menor bola para sexo! Os machos acham as fêmeas hibernando e quando acontece das fêmeas acordam durante o ato, voltam a dormir na mesma hora. Já os coalas (também australianos) machos, na época do acasalamento, berram e muito, berram se fazendo passar por animais bem maiores do que são, afinal as fêmeas os escolhem pelo berro.

Neste paralelo científico, sem paralelos, estamos nós, eleitores, cheios de espinhos e sono, e políticos coalas, coalas berradores!

Seus berros ecoam em calçadas na forma de placas, cheias de sorrisos cínicos. Já viu a cara da imensa maioria dos candidatos?! Aquele sorriso me diz algo, mas algo bem ruim. Sorrisos que guardam razoável tom de quem está esperando a eleição passar para sumir por uns quatro anos, eu diria. Cara de quem está aproveitando que todos hibernamos.

Programas políticos com soluções mágicas, sempre prometidas e nunca cumpridas. É tudo dança do acasalamento, promessas, rituais, beijinho na criancinha durante a campanha que vai virar beijinho no ombro em menos de um mês, logo que virar outubro. Seus berros são também jargões ensaiados, personagens caricaturizados de nós mesmos, são coalas mimetizados com espinhos, são berros que não acordam ninguém, e seguimos dormindo.

Não bastasse o tom monocórdio eles só aparecem na época do acasalamento, de quatro em quatro anos, e somem em sua imensa maioria, e ainda assim conseguem perpetuar sua espécie. Culpam o sistema que fazem parte, o sistema que absurdamente define seus próprios privilégios e o que me preocupa é que seguem longe de ser uma espécie ameaçada de extinção, e não abre a temporada de caça! Coalas berradores estão mais para pragas, que para algo benéfico neste meio ambiente político.

Mas se engana quem crê que coalas machos são os bichos estranhos. Verdadeiramente estranho somos nós, os espinhosos dorminhocos, que seguimos impávidos. Estranho é copularmos nossos votos com propostas superficiais, que não representam nossas opiniões ou interesses, e seguimos o macho alfa da manada de coalas berradores. Como num jogo de futebol, queremos ganhar! Totalmente sem sentido. Totalmente estranho. As pesquisas de opinião mudam opiniões, ao invés de representá-las. Coalas são escolhidos pelo berro e pelo desempenho em pesquisas, nunca por seus genes, nunca por seus atributos de coala.

O efeito manada, de seguirmos uns aos outros, se aplica aqui também, sem motivação, sem paixão, sem comprometimento, apenas seguindo. Abrimos nossos olhos por breve relance, olhamos, e voltamos a dormir, feito nossa amiga equidna-de-bico-curto, enquanto isso, muitos berros….e a gente dorme!

 

“Roberto Mendes é publicitário, especialista em marketing pelo Instituto de Administração e Gerência da PUC/RJ, pós-graduado em Engenharia Ambiental, professor titular da Universidade Candido Mendes e sócio da Target Comunicação.

Empresas de marketing ou marketing de empresas.

Art 629 - Empresas de marketing ou marketing de empresas

 

Em 1954 Peter Drucker pregava que as empresas precisavam transformar o marketing na própria empresa e não em um apêndice. Mais de cinquenta anos se passaram e algumas empresas ainda não fazem ideia do que ele queria dizer com isso.

O marketing é a orientação focada no mercado, nas suas tendências, no que os clientes desejam, é entender o que está impactando cada um destes compradores, quer seja por ações de concorrentes, de produtos substitutos, tecnologia, cultura, religião etc.

Em julho passado a Procter & Gamble, um gigante do mercado de consumo, detentora de marcas conhecidas como Gillete, Duracell, Pampers, Vick, Oral B e mais outras tantas, cortou de dezenas de seus diretores e gerentes a palavra marketing.

Ignorantes ou inimigos do mercado entenderam como um descrédito ao marketing, mas olhos mais atentos e mais competentes tiveram como clara a decisão de que finalmente a P&G assume o marketing como algo absolutamente dissolvido e que recobre cada decisor em sua empresa. Agora marketing não é mais um produto, mas uma categoria de produto, categoria essa comercializada por toda a empresa.

Ainda vejo e tenho certeza que quem me lê ainda experimenta produtos e serviços desprovidos de marketing, aonde em uma clara vocação imposta “de cima para baixo”, nos empurra pela goela itens e processos que nem de longe atendem às nossas necessidades ou expectativas. São produtos que não atendem, quer seja em sua embalagem ou em seu conteúdo. Embalagens individuais de catchup e mostarda, os famosos sachês, que alguns simplesmente não abrem. Muito mais que músculos de aço, é preciso nervos de aço para tentar romper aquele maldito invólucro. Embalagem após embalagem nada acontece, e quando finalmente se obtém sucesso, se ganha uma medalha; um borrão na roupa! É tão ruim, e tão publicamente ruim, que inventaram a lâmina para abri-los, normalmente sobre porta guardanapos, e aí nos deparamos com aquele aspecto nojento de catchup de sobras de cinco dias atrás, já esverdeando, sob o “abre sachê”.

Por que o fabricante deste produto não muda sua embalagem? Simplesmente por que quem compra (a loja) quer preço e não qualidade, e ignora que seu cliente quer qualidade e preço, e mais, que cada vez que a loja abaixa a qualidade sua percepção de preço alto aumenta. Tudo isso é um erro de marketing, e imenso, tão contagioso e tão comum no mercado.

Muitas empresas tiram a diferença (reduzem custo) em itens que são tangíveis e sensíveis aos olhos do cliente e com isso alteram o resultado da experiência de consumo, afastando clientes e potenciais clientes.

Conhecer quais expectativas seu cliente tem, informá-lo corretamente para que haja um nivelamento destas expectativas, acompanhar o processo de compra, uso e garantias, abrindo canais de comunicação que sejam capazes de gerar uma boa impressão, que possam reforçar a ligação dele com a empresa, além do óbvio, como ter um bom produto e/ou serviço são condições básicas de quem acredita que marketing não é apenas parte do negócio, mas o negócio look at these guys.

É preciso desconstruir na cabeça do empresário que o marketing está ligado a enganar, mascarar ou esconder. Se hoje o consumidor tem essa impressão, a culpa reside no intermediário de marketing, nas muitas empresas que, seduzidas pelos resultados capazes de serem gerados pela ferramenta, produzem lobos em pelagem de cordeiro e entregam mentira na forma de produtos e serviços.

As empresas precisam parar de fazer marketing. É preciso se tornar empresas de marketing. Precisam cada vez mais olhar com olhos atentos para seu cliente e mercado, precisam ver o marketing não como uma ferramenta de oportunidade, mas como a oportunidade de gerar através de seu produto ou serviço uma ferramenta (de’ valor) para seu cliente.

 

“Roberto Mendes é publicitário, especialista em marketing pelo Instituto de Administração e Gerência da PUC/RJ, pós-graduado em Engenharia Ambiental, professor titular da Universidade Candido Mendes e sócio da Target Comunicação.”

Ser ótimo não é o bastante.

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O senso comum é que ser razoável em algo é imprescindível, que ser bom te garante certa prosperidade e ser ótimo te dá credenciais de super-herói. O senso comum quase sempre se engana, porque os detalhes costumam a ser cruéis com quem olha superficialmente qualquer questão e parece satisfazer-se com um único e obtuso ângulo de vista.

Com frequência vejo produtos, prestadores de serviço, empresas, profissionais que apesar de serem muito bom em algo patinam, derrapam, capotam, enquanto vejo equivalentes com menos potencial específico em condição melhor, embora raro, mas real.

Quase sempre o sucesso está associado ao conjunto, e não a um valor indiscutível ou tão raro. Conjunto é o nome para o aparente sucesso de mercado. Equilíbrio, não somente, entre características que ao final saceiam a origem de determinada demanda ou anseio, mas também o conjunto de qualidades associadas, que vem na forma de um brinde, e que recobre produtos, serviços, profissionais ou mesmo pessoas.

Pensemos em um vendedor: há vendedores de grande conhecimento de produto, mas sua forma de conduzir derrubam o processo, dificultam, travam, desestimulam o negócio, porque lhe falta entendimento dos sentimentos do consumidor, ou entendimento do impacto do aspecto financeiro, por exemplo.  São tantos os profissionais que tem imensa capacidade de produção em determinada vertente, mas sua incompletude freia sua capacidade total, suprime resultados ou mesmo anula sua virtude.

Empresas quase sempre replicam esses comportamentos. Na verdade empresas são entidades vivas, cheias de vícios e personalidade de sua liderança ou de sua falta de liderança, para o bem e para o mal.

Algumas empresas são tão boas no que fazem que só sabem fazer tal tarefa e acreditam que isso as basta. A má notícia é que não basta. Uma empresa só prospera se for boa no seu produto ou serviço, mas e for boa na precificação, na cobrança, na distribuição, no trato com fornecedores e colaboradores, com seus clientes, com sua embalagem, marca, sua comunicação e por aí vai.

Esse é de longe o erro mais comum que vejo em empresas e profissionais, o excesso de foco ou de autoconfiança em apenas um aspecto, porque nós que compramos somos muito mais complexo que isso, porque o mercado que todo dia teima em selecionar quem fica e quem morre, e ele exige um enfoque multitarefa, capaz de saciar a complexidade que somos, e não costuma a preservar apenas os bons ou os ótimos em apenas uma única coisa.

Diariamente vejo essa distorção acontecer, vejo produtos melhores saírem do mercado, enquanto bons ficam. Vejo empresas ótimas serem vencidas por empresas razoáveis, vejo profissionais excelentes perderem para medianos, tudo porque o conjunto de quem fica é melhor.

Os empreendedores precisam de mais preparo genérico, as empresas precisam de mais foco no todo e menos foco no foco, os profissionais precisam entender melhor a complexidade de suas atitudes e tomadas de decisão. Vendedores precisam compreender o ponto de vista da empresa e do consumidor e mediar os interesses, não raramente divergentes. O empreendedor precisa negociar os interesses de quem compra, com os dele que vende, adicionando a gestão de quem fornece.

Qualidades únicas são sim desejadas, mas no aspecto de se ter algo que ninguém tem, mas não no sentido de não ter mais nada que interesse. Ainda somos avaliados pelo mercado, não por nossa nota máxima, mas pela nossa média. Assim dez e dois geram média seis, enquanto dois setes elevam a média em quinze por cento. Ser ótimo em algo não é passaporte para o sucesso, mas seu conjunto de atributos ainda é o que o mercado espera e quer de nossos produtos, serviços, empresas e profissionais.

 

“Roberto Mendes é publicitário, especialista em marketing pelo Instituto de Administração e Gerência da PUC/RJ, pós-graduado em Engenharia Ambiental, professor titular da Universidade Candido Mendes e sócio da Target Comunicação.”

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