Arquivo para o mês: dezembro, 2014

Sem fio e sem pressa.  

Art 643 - Sem fio e sem pressa

 

Uma contradição interessante dos dias de hoje é que estamos cada vez mais cercados de pessoas, cada vez mais conectados a todos e cada vez mais solitários. Vivemos com acesso a redes sociais, aplicativos de mensagens instantâneas e com acesso a comunicação por voz, vídeo e texto, e seguimos cada vez com menos tempo.

Parece que ter todos e todas as formas de comunicação ao alcance dos dedos tem nos afastado cada vez mais de uma vida com mais qualidade e mais profundidade.

E parece que não são somente nossos dias que estão piores, os negócios sofrem com isso também.

Um caso emblemático aconteceu em Nova York, neste ano, em um restaurante popular e com muitos anos de mercado e grande experiência. Ele começou a experimentar perdas em suas receitas e não conseguia descobrir o que estava acontecendo.

Com a ajuda de um especialista de marketing (tinha que ser um cara de marketing, é claro! risos) perceberam que o número de clientes não havia subido, mas se mantido, mas o serviço estava cada vez mais lento, mesmo com mais funcionários e com a redução do cardápio. Reclamações surgiam dos clientes que tinham que esperar por uma mesa, não pelos clientes em atendimento. Os números históricos do restaurante não davam pistas evidentes do que aconteciam, então recorreram aos sistemas de vídeo do restaurante, buscando ver comportamento de funcionários.

Para o estudo compararam vídeos de 10 anos atrás com atuais. A performance do restaurante parecia a mesma, no que se referiam a quantidades de clientes confirmando a integridade dos números, então o que estava acontecendo?! Quando se foi ver o número de pedidos de mudanças de mesas, esses haviam quase triplicado. O tempo para o pedido ao garçom havia subido de 8 para 21 minutos e o tempo de uso do garçom para assuntos que não se referiam ao serviço nato, subiu de zero para 5 minutos em média.

Por que tantas mudanças? Tudo graças à Internet. Pedidos de mudança de mesas, adiamento no pedido e os cinco minutos com o garçom se deram em função de dificuldade de sinal de Internet, uso do celular antes de olhar o cardápio e dúvidas na conexão Wi-Fi, respectivamente.

E os problemas não paravam por aí, quanto mais complexo o pedido, mais os clientes pediam ao garçom para tirar fotos, e muitos novas fotos, pois não haviam ficado satisfeitos com a foto inicial, e ainda tiravam selfies, o que atrasava o tempo na mesa em mais 7 minutos em média, mais atrasos e reserviços causados por pedidos de reaquecimento de pratos na cozinha, devido ao tempo perdido com fotografias, análise e postagens.

Terminada a refeição os clientes gastavam em média mais 20 minutos na mesa com seus dispositivos, tempo que não era gasto 10 anos antes, quando não havia distrações no restaurante, e em média mais 15 minutos após o pagamento da conta.

E engana-se que paravam aqui os atrasos e problemas, dos 45 clientes analisados, 8 ainda trombaram com mesas, garçons ou clientes enquanto saiam do restaurante, pois digitavam enquanto caminhavam, gerando perdas e desgastes.

Deste modo o tempo médio subiu de uma hora para duas horas, reduzindo drasticamente o giro sem gerar incremento na receita. Tudo por razões aleatórias à gestão.

Assim esse caso não é uma resposta ao dilema comum em alguns estabelecimentos sobre colocar ou não um serviço de Wi-Fi para seus clientes, mas um alerta sobre a necessidade de adaptar-se à tudo isso e gerar controles sobre os impactos das mudanças de comportamento sobre a gestão dos negócios.

Clientes sem fio e sem pressa podem gerar fornecedores sem dinheiro e sem futuro. Mais um problema para gerenciar. Vou digitar no Google e procurar uma resposta…

 

“Roberto Mendes é publicitário, especialista em marketing pelo Instituto de Administração e Gerência da PUC/RJ, pós-graduado em Engenharia Ambiental, professor titular da Universidade Candido Mendes e sócio da Target Comunica.

Estética mortal

Art 642 - Estética mortal

 

 

Vivemos sob a ditadura do consumo e sobre o totalitarismo da beleza. Nada é mais difundido, exigido ou mais massacrante do que a necessidade de beleza e suas consequências. A busca de um padrão estético que não é seu ou meu, mas de terceiros, é a grande caminhada de nossa humanidade e maratona é ter dinheiro para comprar tudo isso.

A cada semana novos e escandalosos casos de mortes ou problemas sérios, sejam eles em mesas improvisadas de cirurgia com falsos especialistas, em prontos-socorros, com produtos de uso industrial, sem prescrição, sem liberação da Anvisa ou em doses absurdas acontecem. Os problemas não param, alcançam dietas milagrosas, bulimia e outros tantos horrores como os de ordem psicológica, tudo porque nossa sociedade cultua a estética acima de qualquer outro valor.

Inteligência, bondade, honestidade, saúde… nada é mais potente que beleza. Assim nossa sociedade constrói os heróis sempre bonitos, eles sempre ficam com a mocinha, o bonito é quem anuncia o produto, é quem ganha a torcida ou acaba sempre com o final feliz nos filmes. Até, quando o jornal mostra que um bonito morreu, o coro do “que pena” se fortalece.

Esse é o maior de todos os bullyings, o maior racismo vigente, o maior preconceito de todos. Nossas crianças estão sendo massacradas por propagandas que exigem estética, que semeiam que as oportunidades só acontecem para as bonitas, para roupas que só vestem “gostosas” e “sarados” e por brinquedos como “Barbies magrelas” focados em cosmética e autoimagem.

Nada contra magrelas ou gorduchas, o que está errado é criar um conceito que iguala a todos num único saco de gatos e nos promove a serem estéticos e não mentais, espirituais, sentimentais etc. Este truque faz com que todos corram buscando esta estética e jamais acharam, mas muito dinheiro vai rolar e o mercado precisa disso.

Na sociedade das selfies aonde por nada todos se autofotografam e disputam elogios estéticos a indústria da beleza determina e sentencia a todos a pertencer a um dos dois e opostos grupos: egocêntricos bonitos e o resto.

A beleza de ter sua própria idade virou vergonha e meninas de 10 anos já acreditam que são imperfeitas (o que é fato, afinal todos somos) e acreditam ainda que isso é uma maldição, acreditam estar marcadas para jamais serem amadas, desejadas, queridas porque seus seios são maiores ou menores, suas coxas são mais ou menos, ou seus cabelos têm ou não tem, e seus espelhos só mostram defeitos e a competitividade com a colega de sala, a menina da revista e amiga da mãe só a frustra e transborda e sobrepõe a amizade e a esperança.

Enganar a idade, enganar a genética, enganar a si, vamos enganando a vida, seu propósito, e nos esquecemos que estética não permite enganar a morte.

As pessoas parecem tão preocupadas com a imagem que tem de si que esquecem ou simplesmente já não importa a imagem que projetam para os outros. A beleza é ótima para os negócios, mas não para as pessoas.

Aprecio o belo, mas não consigo concordar com uma sociedade que promove a beleza acima da boa vontade, educação, conhecimento, honestidade etc. e não acredito que é a beleza pela beleza, mas sim que é a beleza como negócio.

Pessoas morrem em nome da beleza, quando o que há de mais belo é viver. Pessoas passam a vida em busca de uma beleza de si e esquecem que a beleza está em viver a vida. Pessoas dedicam mais dinheiro e tempo à beleza que ao espírito, a família ou ao conhecimento… e ainda dizem que a mídia não tem poder…inocentes!

Claro que a mídia potencializa o Narciso que mora e vive dentro de nós, mas esse instinto tem que ser vencido pela fantástica experiência que é viver. Neste fim de ano, espero que mais pessoas projetem para o próximo ano metas para si, para sua saúde, para coisas, itens ou serviços, que sejam, para tudo que faz de nós conteúdo, menos foco naquilo que faz de nós embalagem, e sobre tudo que não morram em nome de uma estética duvidosa e impessoal. Espero que em 2015 as pessoas lembrem que morrer é feio e beleza é algo pessoal, é de cada um.

 

“Roberto Mendes é publicitário, especialista em marketing pelo Instituto de Administração e Gerência da PUC/RJ, pós-graduado em Engenharia Ambiental, professor titular da Universidade Candido Mendes e sócio da Target Comunica.

 

 

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Desejo segmentado.

Art 641 - Desejo segmentado

 

É natal tempo de amor, esperança…. tempo de consumo?

Não sou eu que estou dizendo, mas marcas, consumidores, crianças… todos querem ganhar!

Cada vez mais a roda gira e girando leva tudo a sua frente, esmaga cada vez mais o consumidor na direção do desejo, do ter, no foco do querer e no peso da frustração por não possuir.

Mais que luzes piscando, piscam os olhos ao verem itens que se tornaram indispensáveis, não para o dia a dia, mas para a felicidade. Ter é ser, e ninguém mais parece ser se não tiver.

Conjugar verbo em dezembro é: eu desejo, você me dá, ele me presenteia. Nós recebemos, vocês me satisfazem, eles me fazem feliz.

Curioso como o marketing conseguiu segmentar o desejo, ou seja, criou camadas, fatias, dividiu e agrupou consumidores em patamares de consumo e de desejo, criando como verdade algo que é pura mentira e faz cada um de cada um nós focarmos em itens que quase podemos ter e assim, mantém a roda girando, esmagando etc.

Um sonha com seu carrinho de brinquedo, outro com seu primeiro carro usado – 1980, outro sonha com seu popular zero, outro quer seu sedan luxo e há quem queira sua Ferrari sob encomenda. Cada um se frustra ou sonha com aquilo que é alcançável ou que tem relevância e significado no ambiente social em que vive.

Jean Baudrillard, um pensador francês, já falecido, que sou fã, dizia que os objetos possuíam além de seu valor de uso e de troca, um valor de signo, valor esse que era determinante nas práticas de consumo, e também considerava bastantes danosas tais práticas.

Deste modo os objetos tem referência a cada sociedade e cada classe desta sociedade. Um carro com um equipamento ensurdecedor de som tem resonância em determinada classe social, em determinada idade, em determinado tempo social, e pode ter mais significado do que o próprio carro que o carrega. Assim o que seria um constrangimento para mim, desfilar num carro com o som aos berros, incomodando a todos, pode e é o sonho de consumo de outro, porque em seu círculo social há admiração, há significado positivo tal comportamento.

Deste modo o mercado cria soluções, felicidades e frustrações para cada bolso, vontade, tempo social e realidade. A roda não para jamais.

Em tempo de natal a publicidade explode e foca na recompensa do “você merece”, trabalha cuidadosamente a perspectiva do “você deseja”, e cria estereótipos capazes de fazer você se ver no comercial, na novela e na revista aonde tais objetos ganham seus signos e produz em você, em mim, em nós o sentimento da felicidade que pode ser alcançada, comprada. Quase se pode ler ou ouvir nos comerciais: Leve felicidade agora e pague só depois do carnaval!

Não há novidade em tudo isso, mas existe um agravamento de tudo isso. Cada vez mais o mercado nos torna mais impessoais, mais manipuláveis e menos críticos. Crianças estão sendo criadas por canais infantis com publicidade bem crescida e agressiva, e cada vez mais sozinhas e sem quem as diga que felicidade não pode ser comprada em 10 vezes sem juros e que cartão de crédito não é um troço mágico que atraia coisas que saem de graça. Essas crianças estão olhando cada vez mais para o natal e para vida, como algo de prateleira, e a continuar assim não saberão jamais o que realmente é felicidade. Trabalharão para comprar e terão que trabalhar ainda mais para comprar mais, sempre em busca de felicidade.

Felicidade é o que move tudo, essa é a resposta que todos concordam. Abra uma Coca-Cola e abra felicidade… diz o slogan. No passado o caminho para a felicidade variava, mudava de um indivíduo para o outro, mas o consumo cada vez mais unifica o conceito de felicidade dentro de si, ou seja, comprar é a solução, o que comprar é que muda. A segmentação daquilo que nos faz feliz, parece resolver todos os problemas, é só escolher o que cabe no seu bolso, tem desde o carrinho de brinquedo a Ferrari.

 

“Roberto Mendes é publicitário, especialista em marketing pelo Instituto de Administração e Gerência da PUC/RJ, pós-graduado em Engenharia Ambiental, professor titular da Universidade Candido Mendes e sócio da Target Comunica.

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