Batendo uma bolinha

Art 615 - Batendo uma bolinha

Enquanto todos os países sede tiveram crescimento do PIB no ano da Copa (exceto Itália em 1990) o Brasil segue na contra mão com redução do PIB. Nossa cambaleante economia segue chutando para fora apesar de realizar investimentos desnecessários em estádios e indispensáveis em infraestrutura.

Assim apesar da injeção de dinheiro público e privado em aeroportos, estádios, hotéis etc. a Copa em nosso Brasil não mostrou ainda ao que veio. O banco mundial revisou nossa meta de PIB e já expulsou um ponto percentual no placar que já era quase um empate de zero a zero.

O comércio temático, que trabalha em cima de datas promocionais, mudando todo seu portfólio de acordo com o tema da época – volta às aulas, copa do mundo, páscoa, dia das crianças etc. – não faturou o esperado e em véspera de copa tenta uma liquidação aqui outra ali para não ficar estocado de verde e amarelo e torce para ter prorrogação pra ver se vende pelo menos o necessário para não ter prejuízo.

Bares e restaurantes tendem a faturar com os jogos e tentam reprogramar o dia dos namorados para a véspera em nome de um atendimento melhor e ampliação do faturamento. As vitrines ficaram mais verdes e amarelas do que vermelhas e ao que parece teremos mais chopp do que vinho, mais corneta do que batom, mais camisa do Brasil que lingerie neste dia 12 de junho.

O setor da mídia com direitos de transmissão fatura alto com Copa do mundo, com espaços comerciais lotados, enquanto os demais canais perdem em audiência e preferência.

O intervalo está até chato, com todos falando da mesma coisa, gritos de gol ecoam, mas as vendas não goleiam. O mercado está em treino, o gramado da paisagem é verde, mas o cenário não. O jogo não começa pra nossa economia e já estamos a quinze dias do segundo semestre.

Bolas fora, a Copa do mundo também traz histeria. Aliás, a mídia nos deixa histéricos. Não se consegue mais falar de outro assunto, de repente nos vemos todos obrigados a saber do noivado do jogador A, da capoeira do jogador B, da alimentação da seleção C, enquanto isso a bolsa ministro, uma ajudinha para o alto escalão do governo federal assistir aos jogos da Copa segue em relativo silêncio, e a massa não lembra se quer de quem é o vice-presidente do Brasil, e ignora que este acaba de revender o apoio do seu partido PMDB ao PT nas próximas eleições.

A mídia que parece ser sempre monotarefa, evidentemente assume seu papel de entreter, e elege a Copa do Mundo como único assunto relevante, e goste você ou não de futebol, e aconteça ou não outros fatos mais significativos, a pauta Copa tem seu lugar definido. Nesta estratégia a massa segue conduzida e até os mais céticos se veem vestidos de verde e amarelo de bandeira na mão.

A bola no campo vai começar a rolar hoje, mas a bola murcha da nossa economia segue sem embalo e sem fazer gol. Tomara que a Copa acabe logo, pois este carnaval fora de época é toda a distração que o poder precisa. O pão e circo da Roma antiga viraram futebol e cerveja do Brasil moderno. Não mudou muito em dois mil anos. Em ano de eleição cada gol de Neymar e Fred pode se tornar um belo gol contra a atenção que o Brasil precisa.

 

“Roberto Mendes é publicitário, especialista em marketing pelo Instituto de Administração e Gerência da PUC/RJ, pós-graduado em Engenharia Ambiental, professor titular da Universidade Candido Mendes e sócio da Target Comunicação.”

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