Parcelando a alma

Art 604 - Parcelando a alma

Comprar já permitiu ao homem se redimir de seus pecados frente ao criador antes da contra reforma de Lutero, comprar já permitiu libertar escravos quando a ignorância era quem dominava, comprar já permitiu muitas coisas e hoje o que mais produz é dependência e endividamento.

Como verbo bitransitivo, o verbo comprar parece mesmo estar na moda, superafinado com a liberação sexual, mas isso é outro assunto, o fato é que e seguimos comprando e comprando.

Faz parte do show e do esforço publicitário dissociar o comprar do pagar, principalmente faz parte do esforço esquecer-se totalmente do quanto deixamos de ter tudo mais para ter algo, uma vez que o capital é finito e o desejo não. Vende quem tem melhor apelo, vende quem se torna prioridade, vende quem convence que pagar é um detalhe.

Neste mesmo espetáculo do consumo, diante da dissociação citada acima, faz-se grande associação do comprar ao ter, ao possuir, ao pertencer e principalmente ao ser.

A desconstrução da responsabilidade do pagar, que advém do comprar, gira a principal engrenagem do nosso consumo hoje, o financiamento, o parcelamento, o endividamento. Um país endividado com um povo endividado, isso define Brasil hoje. Quer seja pelo exemplo, pela falta de consciência da população ou pela falta de oportunidade, o consumo no Brasil gira na base da prestação, e isso é um castelo de cartas, aonde o primeiro a não pagar, gera impacto em toda a cadeia. Assim cada vez mais crédito é preciso para garantir o crédito existente.

No país da maior taxa de juros do mundo no rotativo do cartão crédito, e segunda maior elevação da taxa de juros do mundo (só perdemos para a minúscula República da Gâmbia, um aglomerado na África!) seguimos comprando coisas em 6, 12, 36, 60 até 360 vezes, como é o caso do parcelamento de imóveis.

Parcelar pode não parecer problema quando pensamos em imóveis ou remédios, mas o consumo inteiro baseado nisso e principalmente alardeado com o famoso “sem juros” é que impressiona no, e pressiona o, mercado.

Um crédito de automóvel consume em 24 meses quase 50% do valor inicial do veículo em juros, o que significa que ½ carro deixa de ser vendido a cada carro financiado. Um enorme absurdo, um enorme prejuízo para o poder de consumo de uma família.

Apesar da demência do congresso que definiu a taxa máxima de juros na constituição em 12% a.a. (a única no mundo com tal debilidade) seguimos com enormes margens embutidas em produtos e serviços, que escamoteiam taxas bem maiores que as sugeridas na constituição.

Reféns de um truque aonde, apesar do cartão de crédito ser considerado compra à vista e ser merecedor de igualdade de vantagens na compra à vista, um sem número de negócios oferta desconto no pagamento à vista de verdade, ou seja, aquele aonde se paga em dinheiro ou boleto. Chamadas prometem parcelamento sem juros e desconto à vista. Ou eu deveria ter sido reprovado em cálculo no curso de engenharia que cursei ou desconto à vista equivale a acréscimo na venda a prazo, mas a linguagem do consumo a culpa se desprende e seguimos comprando “sem juros”.

A verdade é que de prestação em prestação não sobra nada. Com produtos cada vez piores, com taxas e dívidas cada vez maiores, com prazos aparentemente melhores e poder de compra sempre menor seguimos fingindo que está bom e atrasando uma prestação para não perder a outra.

No malabarismo do parcelamento sem juros o brasileiro padrão vive endividado tentando ter seu padrão de consumo melhorado ou ao menos mantido. É o padrão de vida determinando o padrão que vivemos. É a prestação definindo nossa “prestabilidade social”. Só presta ao mundo quem compra. Consumo, logo existo.  Diria Descartes em tempos atuais!

O mantra do consumo credita mérito apenas na prosperidade financeira, impede que seja dividido com atributos como conhecimento, segurança, felicidade ou qualquer outro valor.

Já que o peso social não permite mais dividirmos nossa vida em muitos atributos, seguimos dividindo as compras e parcelando a alma. Vai que volta a moda comprar perdão pode ser um bom momento para abrir um crediário no céu, mas não esqueça, se for seu caso, prefira o cartão de crédito que tem programa de milhagem…

 

“Roberto Mendes é publicitário, especialista em marketing pelo Instituto de Administração e Gerência da PUC/RJ, pós-graduado em Engenharia Ambiental, professor titular da Universidade Candido Mendes e sócio da Target Comunicação.”

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