Ser ótimo não é o bastante.

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O senso comum é que ser razoável em algo é imprescindível, que ser bom te garante certa prosperidade e ser ótimo te dá credenciais de super-herói. O senso comum quase sempre se engana, porque os detalhes costumam a ser cruéis com quem olha superficialmente qualquer questão e parece satisfazer-se com um único e obtuso ângulo de vista.

Com frequência vejo produtos, prestadores de serviço, empresas, profissionais que apesar de serem muito bom em algo patinam, derrapam, capotam, enquanto vejo equivalentes com menos potencial específico em condição melhor, embora raro, mas real.

Quase sempre o sucesso está associado ao conjunto, e não a um valor indiscutível ou tão raro. Conjunto é o nome para o aparente sucesso de mercado. Equilíbrio, não somente, entre características que ao final saceiam a origem de determinada demanda ou anseio, mas também o conjunto de qualidades associadas, que vem na forma de um brinde, e que recobre produtos, serviços, profissionais ou mesmo pessoas.

Pensemos em um vendedor: há vendedores de grande conhecimento de produto, mas sua forma de conduzir derrubam o processo, dificultam, travam, desestimulam o negócio, porque lhe falta entendimento dos sentimentos do consumidor, ou entendimento do impacto do aspecto financeiro, por exemplo.  São tantos os profissionais que tem imensa capacidade de produção em determinada vertente, mas sua incompletude freia sua capacidade total, suprime resultados ou mesmo anula sua virtude.

Empresas quase sempre replicam esses comportamentos. Na verdade empresas são entidades vivas, cheias de vícios e personalidade de sua liderança ou de sua falta de liderança, para o bem e para o mal.

Algumas empresas são tão boas no que fazem que só sabem fazer tal tarefa e acreditam que isso as basta. A má notícia é que não basta. Uma empresa só prospera se for boa no seu produto ou serviço, mas e for boa na precificação, na cobrança, na distribuição, no trato com fornecedores e colaboradores, com seus clientes, com sua embalagem, marca, sua comunicação e por aí vai.

Esse é de longe o erro mais comum que vejo em empresas e profissionais, o excesso de foco ou de autoconfiança em apenas um aspecto, porque nós que compramos somos muito mais complexo que isso, porque o mercado que todo dia teima em selecionar quem fica e quem morre, e ele exige um enfoque multitarefa, capaz de saciar a complexidade que somos, e não costuma a preservar apenas os bons ou os ótimos em apenas uma única coisa.

Diariamente vejo essa distorção acontecer, vejo produtos melhores saírem do mercado, enquanto bons ficam. Vejo empresas ótimas serem vencidas por empresas razoáveis, vejo profissionais excelentes perderem para medianos, tudo porque o conjunto de quem fica é melhor.

Os empreendedores precisam de mais preparo genérico, as empresas precisam de mais foco no todo e menos foco no foco, os profissionais precisam entender melhor a complexidade de suas atitudes e tomadas de decisão. Vendedores precisam compreender o ponto de vista da empresa e do consumidor e mediar os interesses, não raramente divergentes. O empreendedor precisa negociar os interesses de quem compra, com os dele que vende, adicionando a gestão de quem fornece.

Qualidades únicas são sim desejadas, mas no aspecto de se ter algo que ninguém tem, mas não no sentido de não ter mais nada que interesse. Ainda somos avaliados pelo mercado, não por nossa nota máxima, mas pela nossa média. Assim dez e dois geram média seis, enquanto dois setes elevam a média em quinze por cento. Ser ótimo em algo não é passaporte para o sucesso, mas seu conjunto de atributos ainda é o que o mercado espera e quer de nossos produtos, serviços, empresas e profissionais.

 

“Roberto Mendes é publicitário, especialista em marketing pelo Instituto de Administração e Gerência da PUC/RJ, pós-graduado em Engenharia Ambiental, professor titular da Universidade Candido Mendes e sócio da Target Comunicação.”

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