Somos um bando de perebas.

Art 636 - Somos um bando de perebas

 

No país do futebol (7×1 Alemanha) seguimos nos negócios com comportamentos semelhantes os de dentro de campo. Temos enorme dificuldade de trabalhar em equipe, desconhecemos nosso adversário, o juiz rouba quase o tempo todo, o torcedor só quer vitórias, os jogadores bons vão embora e vencer o campeonato parece impossível.

O Juiz é mesmo um filho da mãe, rouba todo o tempo e o jogo fica muito difícil de vencer. Impostos altos, guerra fiscal, legislação retrógrada são exemplos de custos que se somam ao custo nato de um negócio. Um governo guloso, vendido apita sempre contra nossos times. O sonho de ser um jogador de futebol, rico e famoso, que permeia os campinhos de várzea, país a fora, é a exceção que todos pensam ser regra. Nesta mesma lógica o sonho de empreender leva em conta apenas os casos de sucesso, formada por pessoas de alta capacidade, bem acima da média, aliadas as situações perfeitas, nos lugares certos. Todos acreditamos ser Neymares ao empreendermos, e a criação do mito só mostra seus carros e mulheres em reportagens com fundos musicais de heróis, nunca vemos seus treinos e seu talento nato (impossível de ser adquirido).

Não bastasse o juiz apitando num jogo comprado, ainda há a imensa dificuldade de formação de equipe, aonde cada jogador olha para si e interessa-se em marcar o gol, não pela vitória para o time que isso representa, mas pela visibilidade que causa para si, e neste drible, contra o conjunto, diversas oportunidades de gol terminam em chutes para fora, frutos da fome de autopromoção. Nas empresas gols contra são marcados a toda hora, por jogadores inaptos, descomprometido com a torcida, com o técnico e com o colega de equipe.

O técnico quase sempre não é técnico, lhe faltam ferramentas formais e consistentes de gestão. Planejar é hobby e treinar é desperdício. Joga-se futebol de forma intuitiva e desperdiçamos resultados porque ignoramos gramados, física, psicologia, estratégia e toda uma gama de fatores que não são redondos, mas afeta a dinâmica da bola. Jogos são perdidos porque falta técnica e técnico, porque vivemos no país do futebol e não das escolas de futebol. Associe a isso a juízes ladrões e a jogadores focados em si mesmo, termina-se por ter uma pelada e não um jogo.

O que dizer dos torcedores? São passionais. Não guardam razão, não usam seus dias de futebol para compreender nada, apenas querem viver a emoção de ser campeão, é a compensação por tantas outras frustrações ou desejos contidos. É hora de gritar gol, é hora de abraçar o estranho ao seu lado e fazer parte de algo muito maior que si. Deste mesmo modo segue o consumo. Clientes não querem discutir as dificuldades ou custos de um negócio. Se saciam apenas com gols, e quando eles não vêm, gritam, reclamam, mas guardam uma diferença importante, mudam a casaca facilmente, falhe uma vez com seu cliente e ele nunca mais entra na sua torcida, exceto se o time adversário for pior que o seu.

Falando em adversário, conhecemos pouco, ignoramos repetidamente comportamentos do concorrente. Como num jogo em que se entra sem saber jogadas e talentos do time adversário, no campo dos negócios guardamos semelhanças também aqui. Nosso torcedor, ou consumidor, conhece mais do que nós sobre ele, com isso nos ataca nos pontos fracos, por vezes aliados a nossos concorrentes. De drible em drible, de pênaltis cavados em pênaltis cavados, terminamos goleados e caindo para segunda divisão.

Como se vê, sentar na poltrona com uma cerveja na mão, no domingo a tarde e ver um jogo e xingar o juiz, reclamar do técnico e culpar o jogador é posição privilegiada de quem é telespectador, mas entrar em campo e fazer gol é uma realidade muito diferente. Na verdade somos um bando de perebas, assistindo TV, talvez por isso tenhamos tanta audiência na TV e tão poucos jogadores ricos.

 

“Roberto Mendes é publicitário, especialista em marketing pelo Instituto de Administração e Gerência da PUC/RJ, pós-graduado em Engenharia Ambiental, professor titular da Universidade Candido Mendes e sócio da Target Comunicação.”

 

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